Entre a realidade e a ficção

Ataualpa A. P. Filho
Educador


Para falar a verdade, só senti na pele as diferenças entre a realidade e a ficção quando comecei a fazer parte da Pastoral de Rua, coordenada pelo Padre Quinha. Passei a ouvir os depoimentos das pessoas que moram ou moraram nas ruas. Tive que concordar com Belchior: “...a vida é muito pior”.
Pelos meios de comunicação, pelos fatos que presenciamos, pelas histórias de vida das pessoas que ouvimos, a realidade impõe um choque que nos leva a pensar sobre o que o ser humano é capaz de fazer com o semelhante. Em outras palavras: a vida desafia o talento dos nossos escritores, expondo certas histórias que gostaríamos que fossem ficções e não realidades. Há tramas, tragédias, requintes de crueldades que depõem contra a natureza humana. O grau de perversidade que constatamos ultrapassa os limites do absurdo, a ponto de deixar uma sociedade pasmada.
No mundo dos animais, as ações e as reações são mais previsíveis. Não há essa maldade movida pelo ódio, pela inveja, pelo ciúme, pelo sentimento de vingança. Os predadores têm suas regras bem definidas na selva. Demarcam territórios e neles estabelecem uma luta pela sobrevivência. A caça pela comida tem critérios, não se mata por vaidade, nem pelos fios das intrigas. Vale citar aqui o diálogo entre Quincas Borba e Brás Cubas, personagens de Machado de Assis. Diz o criador da teoria do Humanitismo: “As criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc.”
Mesmo com esse histórico acúmulo de sagacidade que vem desde os primórdios da humanidade, ainda ficamos perplexos, em pleno século XXI, com a covardia, com a deslealdade, por ser algo inadmissível. Por ainda não termos nos “acostumados” com isso, acho que o homem não nasceu para a violência, mas para o amor, pois este é que lhe traz a paz entre os seus semelhantes e consigo mesmo: o homem nasceu para amar, é o óbvio. A falta de amor é o trágico, seja para com o próximo ou consigo mesmo.
Sófocles, Shakespeare, Proust, Edgar Allan Poe, Garcia Marques, Aghata Christie, Alfred Hitchock, Franz Kafka, Garcia Márquez, Bram Stoker, Nelson Rodrigues, são inúmeros os escritores, cineastas, teatrólogos que povoam o mundo imaginário com os seus personagens. Por mais perversa que seja a trama, e por mais banal que seja o motivo que possa levar a um assassinato, sempre encontraremos, na realidade, algo que supera a ficção. São inúmeras também as obras “baseadas em fatos reais” que recortam a verdade para atenuar o horror... A forma como a imprensa tem noticiado o caso do goleiro envolvido no desaparecimento de uma jovem que se apresentava como mãe de um filho dele, que supostamente tenha sido assassinada, assemelha-se a uma novela, uma vez que os fatos novos criam uma complexidade, aumenta o grau de covardia e a expectativa sobre o desfecho da história. São muitos personagens envolvidos em um ato covarde. E pela indignação da sociedade, cresce o desejo de ver os culpados punidos conforme a lei.
A impunidade é um fator que contribui para o aumento da criminalidade, “o não vai dar em nada”, o “logo-logo” eles estão soltos, os casos antecedentes que não receberam a pena justa criam um descrédito que alimenta uma desconfiança sobre os tribunais. Quando mencionei, no início deste texto, que foi na rua que vi a realidade com dramas, tramas e tragédias com finais tão imprevisíveis que ainda não tinha visto nos livros, estava pensando não na punição imposta pela justiça dos homens, mas na pena que o destino impõe. Não importa se a chegada ao fundo do poço foi por merecimento ou não, a certeza é que a saída mais curta, embora mais árdua, é pelo perdão. E como perdoar? ... Pelos jornais, pelos telejornais, pelos rádios, somos bombardeados de notícias e cenas de violência que mostram a crueldade do homem. Talvez essa seja a nossa pena; não pelo que fizemos, mas pelo que não fazemos. Na realidade, cheguei à conclusão que a tragédia é a ausência de amor. Vou me certificar disso na ficção.




Lei burra

Mauro Peralta
Médico


A sanção do vice-governador Pezão a lei que obriga ao fim do fornecimento de sacos plásticos nos supermercados e grandes lojas para já e nos pequenos comércios, dentro de três anos, é no mínimo muito polêmica.
Todos com um pouco de compreensão sabem que o plástico faz mal à natureza, pois leva centenas de anos para se degradar. No mar, causa envenenamento de várias espécies, que ao comerem lixo plástico, não conseguem digerir o material e morrem intoxicados.
A própria ONU recomenda que, progressivamente, o plástico de embalagens seja eliminado do mundo. Calcula-se que nos Estados Unidos a cada ano 90 billhões de sacos plásticos não sejam reaproveitados, apesar de ser um País do primeiro mundo e a reciclagem estar aumentando . Na China, os sacos já são proibidos no comércio e as multas são muito altas. Nos EUA, apenas São Francisco proibiu completamente o uso da famigerada embalagem.
A proibição economizará milhões de barris de petróleo, outro grande agressor do meio ambiente, causador de trágedias, como o atual vazamento no Golfo do México. E qual será o produto que o subtituirá, papel, papelão, fibra de alguma planta? Quantas árvores serão destruídas? Será que a solução miraculosa, não saírá bem mais cara, ou será que os preços aumentarão para pagar a conta?
Nem sempre o que é bom para os Estados Unidos e Europa é bom para o Brasil. Aqui, os sacos são utilizados pela população pobre para embalarem o lixo doméstico e depois levarem para as “coletoras de lixo”. Na verdade coletores de lixo, como as que temos aqui em Petrópolis, não existem em nenhum lugar civilizado, pois lixo não se acumula, lixo se recolhe, e as mesmas não deveriam existir, pois são criadores de ratos e doenças.
Sem os sacos plásticos, o lixo será jogado pela população sem recursos e desprovida de educação ambiental, nos morros, ruas, largos e praças. Na verdade, também pela população com recursos e sem educação, que o joga pelas janelas dos carros, como se fosse a coisa mais natural do mundo, assim como guimbas de cigarro no chão. Com a chuva o lixo virá para os bueiros, daí para assorear os rios e poluir os oceanos, tudo que a ONU, não quer.
Antes de proibir, deveria existir é uma ampla campanha de esclarecimento. Talvez leve um década, para que possamos através da Escola, conscientizar a comunidade da importância da preservação, da reciclagem, para o bem do planeta e de todos nós. Afinal nós ainda não somos primeiro mundo, e nossa escolaridade e consciência ecológica ainda é inferior até de paises da América do Sul, como Chile, Argentina, e Uruguai.
Os ricos vão continuar a comprar sacos plásticos, e vão continuar embalando seu lixo e mandando seus empregados os deixar nas terríveis coletoras. A classe média, sem recursos para empregados, vai ela mesmo colocá-lo nas coletoras. Os pobres com coisas mais nobres para pensar, como por exemplo a sobrevivência, vão colocá-lo aonde conseguirem, e com certeza não gastarão o suado e parco dinheirinho para comprar sacos de lixo.
Um dos nossos maiores especialistas em meio ambiente, Dr. Carlos Alberto Salgueiro, engenheiro formado na nossa Universidade Católica de Petrópolis é totalmente contra a proibição, prevendo grande piora nos gastos para limpeza dos morros, visto que ninguém pode manter o seu lixo na sua casa. São Paulo, através do prefeito Kassab, proibiu a lei, até que maiores estudos sejam feitos, mesmo com o desgate das patrulhas ideológicas, que o acusam de ser instrumentado pelos fabricantes. O Rio de Janeiro já sansionou a nova legislação.
A conta, com certeza, continuará a ser paga pela classe média, e pelo planeta, pois não é preciso ser muito inteligente para saber que só a Educação resolverá a questão.




Vendo o mundo

Gabriela Pujol Bell Fernandes
Educadora


O mundo é feito de relações. Existimos nas nossas necessidades. Cada um com a sua. Cada um com seu mundo. Somos e os outros também são. E, assim, o mundo se transforma. O nosso mundo se transforma quando o outro está nele. Mas como é o mundo do outro? E se falarmos na interação da escola, como é o mundo dos nossos alunos? Existe uma palavra em alemão “einfühlung” que quer dizer empatia e que significa sentir o que sentiria se estivesse na situação vivida pela outra pessoa.
Para o filósofo Nietzsche no livro Aurora, aforismo 118, “o que é então o próximo? – Que compreendemos de nosso próximo, senão suas fronteiras, quero dizer, aquilo com que ele se inscreve e se imprime em nós e sobre nós? Nada compreendemos dele, senão as mudanças em nós que são por ele causadas. Nós o construímos segundo o que sabemos de nós, dele fazemos um satélite de nosso próprio sistema: e, quando ele nos ilumina ou se escurece, e somos a causa última de ambas as coisas – nós acreditamos o contrário!” O outro principalmente os alunos transformam nossa vida. Se nos permitirmos saber de cada aluno o que lhe impõem a caminhada, percebendo que não somos responsáveis por apenas lhes possibilitar a construção do conhecimento, mas tendo em vista o propósito dessa construção, nos seus limites de mundo, o próprio mundo escolar se tornará um local no qual a aprendizagem será vivida com uma perspectiva mais saudável e interessante.
“O levantamento mostrou que 40% dos jovens entre 15 a 17 anos que evadem das unidades de ensino deixam de estudar simplesmente porque acreditam que a escola é desinteressante”. Essa afirmação é de Sabrina Pacca em “Desisnteresse leva à evasão escolar”, matéria publicada no site www.fgv.br, sobre uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas. Dessa forma, o mundo se constrói. O mundo que nossos alunos trazem de casa e que gostam de trazer à escola porque olharemos a eles com interesse para que haja a verdadeira interação aluno-professor. No livro “Uma professora fora de série”, Esmé Raji Codell fez a seguinte colocação: “Um dia a Ismene me disse: - A diferença entre uma professora iniciante e uma professora experiente é que a professora iniciante pergunta: “Como estou me saindo?” e a experiente pergunta:”Como as crianças estão se saindo?”. Nós, educadores, alunos da vida, experientes, nos sairemos bem ao proporcionarmos essa interação tão nobre dentro do espaço escolar e que influencia tanto o cotidiano deles quando não estiverem perto de nós, pois saberemos como eles estão se saindo na vida com um mundo rico de informações e bem construído como nós auxiliamos.




Lugar de Encontro com Deus

Mons. José Maria Pereira
Pároco da Igreja São José do Itamarati


O Evangelho, em Lc 10, 38-42, apresenta Jesus a caminho de Jerusalém e que, em Betânia, é recebido em casa de Marta, irmã de Maria e Lázaro, por quem o Senhor havia chorado e a quem havia ressuscitado. Na casa dos três irmãos, que Jesus amava de todo o coração, encontrou Ele a acolhida e o repouso necessários para descansar, depois de uma longa jornada. O diálogo de Jesus com Marta tem um tom familiar cheio de confiança, que nos faz pensar na grande amizade do Senhor com os três irmãos. Santo Agostinho comenta esta cena da seguinte maneira: “Marta ocupava-se em muitas coisas, dispondo e preparando a refeição do Senhor. Pelo contrário, Maria preferiu alimentar-se do que dizia o Senhor. Não reparou de certo modo na agitação contínua de sua irmã e sentou-se aos pés de Jesus, sem fazer outra coisa senão escutar as Suas palavras. Tinha muito bem compreendido o que diz o Salmo: “Descansai e vede que Eu sou o Senhor” (Sl 46, 11). Marta consumia-se, Maria alimentava-se; aquela abarcava muitas coisas, esta só atendia a uma. Ambas as coisas são boas.” Por séculos quis-se apresentar Marta e Maria como dois modelos de vida contrapostos: em Maria quis-se representar a contemplação, a vida de união com Deus; em Marta, a vida ativa de trabalho; mas a vida contemplativa não consiste em estar aos pés de Jesus sem fazer nada: isso seria uma desordem! Os afazeres de cada um são precisamente o lugar em que encontramos a Deus, “o eixo sobre o qual assenta e gira a nossa chamada à santidade” (São Josemaria Escrivá). Sem um trabalho sério, consciente, prestigioso, seria muito difícil, para não dizer impossível, ter uma vida interior profunda e exercer um apostolado eficaz no meio do mundo. A maioria dos cristãos, chamados a santificar-se no meio do mundo, não se podem considerar como dois modos contrapostos de viver o cristianismo. Pois, uma vida ativa que se esqueça da união com Deus é algo inútil e estéril; uma suposta vida de oração que prescinda da preocupação apostólica e da santificação das realidades ordinárias também não pode agradar a Deus. A chave está, pois, em saber unir estas duas vidas, sem prejuízo nem de uma nem de outra. Esta união profunda entre ação e contemplação pode viver-se de modos muito diversos, segundo a vocação concreta que cada um recebe de Deus.
O trabalho, longe de ser obstáculo, há de ser meio e ocasião de uma intimidade afetuosa com Nosso Senhor, que é o mais importante. Ou seja, é no meio de nossos trabalhos cotidianos e através deles, não apesar deles, que Deus convida a maioria dos cristãos a santificar o mundo e a santificação nele, com uma vida transbordante de oração que vivifique e dê sentido a essas tarefas. A um grupo numeroso ensinava S. Josemaria Escrivá: “Deveis compreender agora – com uma nova clareza – que Deus vos chama a servi-Lo nas e a partir das tarefas civis, materiais, seculares, da vida humana.
Deus espera-nos cada dia no laboratório, na sala de operações de um hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar, e em todo o imenso panorama do trabalho. Não esqueçam nunca: há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir (...). Não há outro caminho: ou sabemos encontrar o Senhor na nossa vida de todos os dias, ou não O encontraremos nunca. Por isso, posso afirmar que a nossa época precisa devolver à matéria e às situações aparentemente vulgares o seu sentido nobre e original; pondo-as ao serviço do Reino de Deus, espiritualizando-as, fazendo delas o meio e a ocasião para o nosso encontro contínuo com Jesus Cristo” (Temas Atuais do Cristianismo, nº 114).